01 Agosto 2008

28 Julho 2008

VAGAS


A colcha da cama desfeita
é agora mais leve e mais clara.
As sandálias brancas enviaram
ao armário a sombra
impermeável das botas. No lugar
do gorro de lã demora-se hoje
um leve chapéu de palha. Algumas
plantas secaram, mas o calor dos
corpos libertou os lençóis
da sua humilde tarefa, lançando-os
longe como vagas de Agosto.




I. L.



(A Enganosa Respiração da Manhã, 2002)


10 Julho 2008

Folhas A-4, claustrofobia democrática e casamento para procriação



Depois do debate do estado da nação, na AR, que se seguiu a entrevistas recessas e costumeiros fervores económicos salvíficos, não restam duvidas sobre o mofo palavroso e inconsistente da "alternância". Diria mesmo, de um conservadorismo malévolo, atendendo à nossa situação e heranças sociais, culrurais e cívicas.

02 Julho 2008

Silêncio assassino

Num hediondo caso judicial de um padrasto que com agressões diárias e bárbaras pôs um menino de 2 anos, tetraplégico, surdo e cego, quase lhe provocando a morte, mais uma vez o ARGUIDO TEVE DIREITO AO SILÊNCIO.

Que código, que jurisprudência, que hipócritas "direitos humanos", estendem o manto protector para que depois se "cozinhe ", em tribunal, que "não houve intenção de matar".

Eu, se tivesse a função de ser advogada de defesa deste "inhumano" e da bovina mãe da vítima, nunca mais me veria ao espelho.

Na selva, o novo leão que aniquila o velho, e lhe fica com as fêmeas, também extermina as crias do antecessor, para garantir a prevalência dos seus próprios genes. Tal qual estas duas bestas-feras:
ele tentando aniquilar a cria de um antecessor; ela assistindo passivamente, como as quadrúpedes leoas, ao seu aniquilamento.

Sete anos de prisão (que ficam sempre pela metade, na prática) e uma pena suspensa.
E O DIREITO AO SILÊNCIO.

Simplesmente repugnantes: os actos, as pessoas, as leis.

24 Junho 2008

Invenções do PORTO




Além do vinho do Porto, das tripas, dos filetes de polvo com arroz do mesmo, das iscas de bacalhau da Ribeira, do arroz-doce, do culto das camélias, do cimbalino, da francesinha, do fino, do rock português (Chico Fininho de Rui Veloso), do cinema português (Aurélio Paz dos Reis (1862-1931), do liberalismo (1820) e da República (1891- 31 de Janeiro), o Porto inventou a noitada de S. João.

Mesmo durante o Estado Novo, e até por causa disso, nessa noite havia lugar para todas as transgressões e desafios da autoridade polícia, aos pais, aos costumes). Era vox populi que muitas raparigas se desgraçavam na noite de S. João.

Diversos rituais desapareceram ou vão escasseando:

- as rusgas: grupos espontâneos dos bairros populares, operários e "ilhas", que com instrumentos improvisados, alhos-porros, folhas de palmeira, atravessavam as ruas, rumo às Fontaínhas ;


- as tasquinhas: numerosíssimas (no tempo antes dos "pomares", micro-mercados e cafés de bairro), ornamentavam a entrada com grandes folhas de palmeira e balões;

- as fogueiras, promovidas em várias praças, pelo Município, sobre as quais os e as mais afoitas saltavam, entre piadas e incentivos dos assistentes;

- as ervas-santas: a cidreira de S. João, a alfazema, a alfádega, o ainda perdurável manjerico;

- ir ver os arrolados :entendendo-se por "arrolados" os que "tinham perdido a noite" e tinham sucumbido ao cansaço e extremos báquicos na relva, nos passeios, etc. Uma espécie de desfrute de fim-de-festa;

- os bailes de rua em grande número;

- a queima de balões e de fogo-de-artifício.


- o anho: muitas mães de família, transportavam para os fornos de lenha das padarias, na manhã do Dia de S. João, as assadeiras de barro com o carneiro devidamente temperado em "de-vinha-d'alhos" e rodeado de batatinhas novas, que faria o trajecto inverso, devidamente assado, para a mesa familiar.

-as cascatas: uma tradição, que as crianças prolongavam , fazendo na sua rua, uma cascata com um pequeno santo de barro pintado, alguns carneirinhos (às vezes incluiam Santo António e S. Pedro e uns músicos fardados) e que se destinava ao "tostãozinho para o S. João"...